[ÁUDIO] Olho Vivo | 17/09/2026 - Atividades sobre emoções e valorização da vida envolvem 240 crianças do Lar da Menina no Setembro Amarelo
Psicólogas Letícia Musso e Cassiane Zboralski explicaram no programa Olho Vivo como jogos, música, elogios e conversas são usados para trabalhar saúde mental com crianças e famílias
Identificar emoções, perceber mudanças de comportamento e criar espaços em que crianças possam falar sobre o que sentem fazem parte do trabalho desenvolvido neste mês no Lar da Menina, em Getúlio Vargas. As psicólogas Letícia Musso e Cassiane Zboralski falaram sobre as atividades do Setembro Amarelo durante entrevista ao programa Olho Vivo, da Rádio Sideral, nesta quinta-feira (17). A entidade atende cerca de 240 crianças e conta atualmente com 62 funcionários e 35 voluntários, conforme os números apresentados por Cassiane durante a entrevista.
O trabalho com as crianças evita abordar o suicídio de maneira direta e pesada. A proposta, de acordo com Letícia, é fortalecer fatores de proteção desde a infância, ensinando as crianças a reconhecer emoções, expressar sentimentos e procurar apoio quando precisarem.
“O nosso foco principal com as crianças nesse mês não é focar na dor de forma pesada ou falar do suicídio em si, mas sim a gente trabalha alguns fatores de proteção. Isso significa que a gente ensina a criança a identificar o que elas sentem, a expressar as suas emoções, os seus sentimentos e também a entender que a nossa entidade é um lugar seguro para que elas busquem esse apoio”, explicou Letícia.
As atividades variam conforme a idade. Jogos, música, pintura e outras formas de expressão são usados para conversar sobre sentimentos, cuidado com o corpo e valorização da vida. As famílias também receberam um jogo de tabuleiro de boas ações, pensado para estimular interação e conversa em casa.
Entre as ações já realizadas está a “teia dos elogios”, na qual cada criança apontou uma qualidade de um colega enquanto o grupo construía uma teia. Outra atividade foi o “varal dos sentimentos”: as crianças escreveram frases de acolhimento em cartões em formato de coração, posteriormente colocados em frente à entidade. As propostas também alcançam as crianças de seis a 12 anos atendidas no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos.
A escuta aparece como um dos pontos centrais do trabalho. Cassiane chamou a atenção para situações de sofrimento que nem sempre são percebidas pelas pessoas próximas.
“Acolher e ouvir sem julgamento é o primeiro passo pra gente quebrar esse isolamento emocional de quem também tá passando por uma tempestade emocional ou interna nesse momento. E às vezes são até situações difíceis que naquele momento a gente atravessa. Então, o quanto às vezes uma escuta faz uma diferença em uma vida”, afirmou.
Mudanças de comportamento podem servir de alerta
Isolamento social, abandono de atividades que antes davam prazer, falta de esperança em relação ao futuro e alterações no sono ou no apetite estão entre os sinais citados durante a entrevista. Na infância, também merecem atenção mudanças como irritabilidade, choro constante, perda de motivação, queda no rendimento escolar e redução da interação com outras crianças.
O Ministério da Saúde também orienta que sinais de alerta não sejam avaliados isoladamente. Mudanças de comportamento, manifestações verbais e outros indícios precisam ser observados em conjunto, especialmente quando persistem ou aparecem simultaneamente. Diante de alguém em sofrimento, a orientação é conversar em um ambiente adequado, ouvir sem julgamento e incentivar a busca por atendimento profissional.
Cassiane ressaltou que falar sobre sofrimento emocional de maneira responsável não incentiva comportamentos suicidas e pode abrir espaço para que a pessoa procure ajuda.
“Falar de uma forma responsável, acolhedora, informativa dá oportunidade a essa pessoa entender que ela não tá sozinha e que muitas vezes ela pode buscar ajuda e que muitas vezes tem tratamento também pro que ela tá sentindo, que o sofrimento tem saída, sim”, disse.
As psicólogas também chamaram a atenção para uma dificuldade particular da infância: nem sempre a criança consegue explicar verbalmente o que está acontecendo. Mudanças nas brincadeiras, na interação na escola, no nível de energia ou no comportamento cotidiano podem ser formas de demonstrar sofrimento. Orientação semelhante aparece em material do Ministério da Saúde voltado a educadores e profissionais de saúde, que recomenda ajudar crianças e adolescentes a reconhecer emoções e oferecer escuta atenta e sem julgamentos.
Trabalho também envolve funcionários e famílias
O Setembro Amarelo não está restrito às atividades com as crianças. Nesta quinta-feira, a programação interna do Lar da Menina inclui uma ação com os funcionários voltada ao autocuidado e ao relaxamento. Em outra atividade, crianças prepararam mensagens e palavras de carinho que foram entregues aos profissionais da entidade.
Na parte final da entrevista, Cassiane acrescentou o uso de telas entre os aspectos que precisam ser observados pelas famílias ao acompanhar a saúde mental das crianças.
“Algo bem atual e importante que a gente vivencia são as telas. E o quanto isso impacta também na saúde mental das nossas crianças e a gente também não pode deixar de pontuar”, afirmou.
Ela também orientou pais, educadores e outras pessoas próximas a perguntar como alguém realmente está e estar disponível para ouvir a resposta. Para quem estiver enfrentando sofrimento emocional, a recomendação das psicólogas é procurar ajuda profissional e conversar com alguém de confiança.
Onde buscar ajuda
A campanha Setembro Amarelo é realizada nacionalmente pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas as entidades mantêm ações de conscientização ao longo do ano. Em 2026, o lema divulgado pela campanha é “Se precisar, peça ajuda!”.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Letícia também citou durante a entrevista o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e as unidades de saúde como pontos aos quais a população pode recorrer.
Em Getúlio Vargas, o CAPS I Ana Deolinda Fischer está localizado na Rua Irmão Gabriel Leão, nº 1.400, no Centro, e atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. O telefone é (54) 99631-9354. Em situações de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo 192.






