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Meteorologista Luiz Molion questiona previsões de "Super El Niño" e aponta limitações de modelos climáticos

  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

Pesquisador participa da 13.ª edição do Fórum Norte Gaúcho do Trigo e do Milho em Getúlio Vargas nesta sexta-feira (24)

O meteorologista Luiz Carlos Baldicero Molion, professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pesquisador, participa nesta sexta-feira (24) do 13.º Fórum Norte Gaúcho do Trigo e Milho, em Getúlio Vargas. Em um vídeo, o especialista analisa as recentes projeções de agências internacionais sobre a ocorrência de um fenômeno El Niño de grande intensidade, confrontando os dados estatísticos com indicadores atmosféricos e eventos geológicos recentes. No evento em Getúlio Vargas, ele será o primeiro palestrante e apresentará “Clima: perspectivas para 2026 e tendências para 10 anos”.

Divergências nas probabilidades internacionais

Dados do Instituto Internacional de Pesquisa do Clima e Sociedade (IRI) divulgados em meados de março indicavam uma probabilidade de 91% de neutralidade climática no trimestre março-abril-maio, caindo para 53% no período seguinte. A partir de junho, o IRI projetava 72% de chance de El Niño, persistindo até o fim do ano. Essas previsões consideram a possibilidade de as águas ficarem 0,5°C acima da média.

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Em contraste, o Centro de Previsão Climática da Agência Nacional de Oceanos e Atmosféricos dos Estados Unidos (NOAA) apresentou em 9 de abril números mais elevados. A agência apontou 99% de neutralidade para o mês seguinte, 80% para o subsequente e, a partir de junho, 61% de probabilidade de El Niño, subindo progressivamente para 79%, 87%, 90%, 92% e chegando a 93% até o final do ano.

Molion ressalta que o índice de 93% divulgado pela NOAA é composto pela soma de diferentes intensidades:

  • 16% de probabilidade de El Niño fraco;

  • 27% de El Niño moderado;

  • 27% de El Niño forte;

  • 23% de "Super El Niño".

Para o pesquisador, a divulgação da soma total (93%) em vez do percentual específico para o fenômeno severo (23%) pode induzir a interpretações equivocadas e pânico.

Limitações dos modelos e regiões de monitoramento

A análise crítica de Molion baseia-se na metodologia dos centros internacionais. O IRI utiliza uma média de 27 modelos (18 dinâmicos e 9 estatísticos). Já a NOAA utiliza o modelo CFS2, realizando múltiplas rodadas com variações nas condições iniciais. Segundo o meteorologista, tais modelos possuem limitações no ciclo hidrológico e não conseguem reproduzir com precisão a formação de nuvens e chuvas.

Outro ponto destacado é a divisão do Oceano Pacífico em regiões:

  • Niño 1: próximo à costa da América do Sul;

  • Niño 3: região central que melhor se correlaciona com o regime de chuvas na América do Sul;

  • Niño 4: próximo à Austrália e Indonésia, sendo a parte mais quente do oceano;

  • Niño 3.4: região híbrida utilizada pelos Estados Unidos, mas que possui menor correlação com as chuvas no Brasil.

O acoplamento atmosférico e o Índice de Oscilação Sul (IOS)

O El Niño é um fenômeno oceânico (aquecimento das águas), mas sua confirmação depende da resposta da atmosfera, medida pelo Índice de Oscilação Sul (IOS). O IOS monitora a diferença de pressão entre Darwin, no norte da Austrália, e o Taiti, na Polinésia Francesa.

Atualmente, a pressão está baixando na Austrália e aumentando no Taiti, resultando em um IOS positivo, o que sugere uma situação de La Niña (águas frias). Quando o IOS é negativo, indica El Niño. A manutenção do índice positivo sugere que a atmosfera ainda não se acoplou ao oceano, não respondendo às mudanças de temperatura da superfície.

Hipótese geológica: O terremoto de Kamchatka

O pesquisador levanta a hipótese de que o aquecimento observado em partes do Pacífico não seja um El Niño clássico. Molion associa o deslocamento de águas quentes ao terremoto de magnitude 8,8 na escala Richter ocorrido em 30 de julho de 2025 na província de Kamchatka, na Rússia.

O sismo, registrado a 35 km de profundidade, gerou um tsunami que espalhou água quente por uma área de 56 milhões de km² no Pacífico Norte. O evento impulsionou a corrente de Kuroil em direção ao Japão e à costa americana. Segundo Molion, esse movimento pode ter criado ondas internas no oceano que agora levam águas aquecidas em direção à América do Sul, independentemente da dinâmica tradicional do El Niño.


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