Trump sinaliza possível "Operação Colômbia" após captura de Maduro na Venezuela
- Andrei Nardi

- há 2 dias
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Presidente estadunidense acusa governo de Gustavo Petro de ligação com narcotráfico; declarações incluem ameaças de ação militar no México e avaliação sobre colapso em Cuba
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste domingo (4) que uma intervenção militar na Colômbia é considerada uma "boa ideia". A declaração ocorreu após forças americanas realizarem, em 3 de janeiro, um ataque de larga escala contra a Venezuela e capturarem o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, sob a acusação de envolvimento com o narcotráfico internacional e liderança de organização designada pelos EUA como terrorista.
A bordo do avião presidencial, Trump direcionou críticas severas ao presidente colombiano Gustavo Petro, chamando-o de "homem doente" e acusando o governo vizinho de incentivar a produção e venda de cocaína para o mercado americano. "Ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo", acrescentou o mandatário.
Contexto político na Colômbia e acusações de interferência eleitoral
A ameaça militar surge em momento delicado para a Colômbia, que realiza eleições legislativas em 8 de março de 2026 e presidenciais em 31 de maio, com eventual segundo turno em 21 de junho. Pela Constituição colombiana, Gustavo Petro está impedido de concorrer à reeleição para um segundo mandato consecutivo, mas seu governo e aliados disputam o pleito contra forças de centro-direita e direita tradicionalmente próximas a Washington.
Petro acusa Trump de usar a retórica antidrogas e a pressão militar para "afetar as eleições da Colômbia no próximo ano, buscando novamente o triunfo da extrema direita", segundo mensagem publicada em suas redes sociais. O presidente colombiano afirma que "a magnitude do insulto de Trump à Colômbia e a mim mesmo já não tem o objetivo de alcançar uma estratégia eficaz antidrogas", mas sim enfraquecer o movimento democrático do país e facilitar "acesso ao petróleo da Venezuela".
A Colômbia anunciou suspensão da cooperação de inteligência com os EUA em novembro passado, depois que Trump ampliou a presença militar no Caribe como parte da Operação Lança do Sul (Operation Southern Spear, em inglês). O governo de Petro repudiou formalmente as declarações de Trump nesta segunda-feira (5), classificando-as como "ameaça à soberania nacional" e convocando embaixadores de países sul-americanos para reunião extraordinária.
Questionado diretamente por jornalistas sobre a viabilidade de uma incursão em solo colombiano, Trump utilizou o termo "Operação Colômbia" para definir a possível ação externa dos Estados Unidos no país sul-americano. Até o momento, o termo não aparece em comunicados oficiais do Pentágono, mas circula em meios de imprensa como analogia à campanha militar aplicada contra a Venezuela.
México: rejeição firme a qualquer intervenção
Além das tensões com a Colômbia, o presidente americano sinalizou que o México também está no radar de possíveis ações de combate ao tráfico de drogas. Embora tenha mencionado a necessidade de operações no país vizinho, Trump não utilizou termos pejorativos contra a presidente mexicana Claudia Sheinbaum.
Sheinbaum, no entanto, já rejeitou publicamente qualquer forma de intervenção militar dos EUA em território mexicano. "Não aceitamos intervenção. Aceitamos cooperação em inteligência, mas não tropas estrangeiras", declarou a presidente em novembro passado, em resposta a sinalizações de Trump sobre ataques a instalações de cartéis.
A presidente mexicana também evocou a memória histórica de intervenções dos EUA no século 19, lembrando que "da última vez, tomaram metade do México". O México, segundo dados oficiais americanos, é origem de cerca de três quartos da cocaína traficada para os EUA e de praticamente todo o fentanil sintético — substância que responde pela maior parte das mortes por overdose no país, mas que não transita pelo Caribe.
Cuba e o discurso de "colapso iminente"
Em relação a Cuba, o presidente descartou, por ora, qualquer intervenção militar direta. Na avaliação de Trump, o governo cubano "parece estar prestes a ruir" por questões internas, o que tornaria desnecessária uma ação externa americana no momento.
A previsão de colapso do regime cubano é recorrente em discursos de Washington há décadas, mas até aqui não se concretizou, apesar de graves crises econômicas e de pressão contínua de sanções. Analistas avaliam que o governo Trump mantém Cuba sob "pressão máxima" enquanto concentra recursos militares nas operações contra Venezuela, Colômbia e cartéis do México.
Operação Lança do Sul: o maior desdobramento militar dos EUA na região desde a Guerra Fria
A captura de Nicolás Maduro resultou da Operação Lança do Sul (Operation Southern Spear), campanha militar anunciada formalmente em 13 de novembro de 2025 pelo secretário de Defesa Pete Hegseth. O Pentágono descreve a operação como "campanha antinarcoterrorismo" destinada a proteger a segurança nacional dos EUA contra organizações criminosas transnacionais no Hemisfério Ocidental.
Cerca de 15 mil militares americanos foram desdobrados na região em 2025, apoiados por porta-aviões, navios de assalto anfíbio, drones, bombardeiros e sistemas autônomos de vigilância marítima, no que representa a maior presença militar dos EUA na América Latina desde a Guerra Fria. A operação já autorizou mais de 20 ataques letais contra embarcações suspeitas de tráfico, sem necessidade — segundo briefing do Pentágono ao Congresso — de identificação positiva de membros de cartéis a bordo.
O governo Trump notificou o Congresso, em outubro de 2025, de que os EUA estavam engajados em "conflito armado não internacional" contra cartéis de drogas, interpretando as ações dessas organizações como "ataque armado" aos Estados Unidos e reivindicando, assim, poderes de guerra sem autorização prévia do Legislativo. Duas resoluções bipartidárias que limitariam o uso de força militar contra a Venezuela sem aval congressual foram derrubadas pelo Senado e pela Câmara em novembro e dezembro de 2025.
Legalidade internacional contestada e reações regionais
Especialistas em direito internacional, parlamentares americanos e governos de vários países classificam a captura de Maduro como "rapto extraterritorial" e violação da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial de Estados soberanos salvo em legítima defesa ou com mandato do Conselho de Segurança.
A Rússia convocou reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU e condenou a ação como "agressão armada contra a Venezuela", reafirmando apoio a Caracas. Moscou e Caracas assinaram tratado de parceria estratégica em outubro de 2025, ampliando cooperação em defesa, energia e contraterrorismo.
A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, saudou a captura e pediu que Edmundo González Urrutia — declarado vencedor das eleições de 2024 pela oposição — seja empossado como presidente. Trump afirmou, em coletiva de 3 de janeiro, que os EUA vão "administrar" a Venezuela "até que possamos fazer uma transição segura, adequada e judiciosa", e que empresas americanas reconstruirão a infraestrutura petrolífera do país.
Shannon K. O'Neil, vice-presidente sênior do Council on Foreign Relations, alertou que "Maduro se foi, mas os elementos repressivos do regime ainda estão lá e no controle. É um país enorme, difícil de controlar territorialmente. Há também muitos grupos armados — militares, polícia secreta, coletivos, milícias — que líderes democráticos e pró-EUA na Venezuela precisariam dominar. A oposição está desarmada; não está claro como ela ganha controle físico das ruas, pré-requisito básico para governar."
O que vem a seguir
A Casa Branca justifica as operações militares na Venezuela, Colômbia e México como medidas de segurança nacional e combate a cartéis internacionais, mas críticos apontam que o foco em interdição marítima no Caribe tem efeito limitado sobre as overdoses por fentanil nos EUA — que vêm majoritariamente do México por via terrestre.
"O que quer que seja feito no Caribe não tem efeito sobre o fentanil", afirmou Vanda Felbab-Brown, especialista em políticas antidrogas da Brookings Institution, em entrevista à NPR.
A região está dividida: El Salvador e República Dominicana expressaram apoio às operações dos EUA, enquanto Equador rejeitou, por ampla margem, proposta de permitir bases militares estrangeiras em seu território. Analistas apontam que os países da América Latina atuam, no momento, em defesa de interesses nacionais específicos, sem coordenação regional robusta.










