Governo anuncia R$ 89 bilhões para agricultura familiar no Plano Safra
- Andrei Nardi

- 30 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Plano amplia crédito para mecanização e produção de alimentos, mas lideranças do RS demonstram preocupação com juros, endividamento e acesso aos recursos
O governo federal anunciou nesta segunda-feira (30) os valores do Plano Safra destinados à agricultura familiar, totalizando R$ 89 bilhões em crédito rural para pequenos produtores. Desse montante, R$ 78,2 bilhões são direcionados ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o que representa um aumento de 47,5% em comparação ao último ciclo agrícola. O plano financeiro prevê ampliação de crédito, juro negativo para a produção de alimentos e mecanização, além de novas linhas focadas em sustentabilidade.
Juros e incentivo à mecanização
O governo manteve a taxa de juros em 3% para o financiamento da produção de alimentos que compõem a cesta básica, como arroz, feijão, mandioca, frutas, verduras, ovos e leite. Para cultivos orgânicos desses produtos, a taxa é de 2%. “Eu costumo dizer que são juros de pai para filho, e eu aqui faço um desafio: dou um quilo de café se alguém arrumar um financiamento mais barato na sociedade brasileira”, afirmou o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura, Paulo Teixeira.
O plano também reforça os incentivos à mecanização. Dentro do Programa Mais Alimentos, o limite para a compra de máquinas e equipamentos menores foi ampliado de R$ 50 mil para R$ 100 mil, com a taxa de juro mantida em 2,5%. Para máquinas maiores, de até R$ 250 mil, a taxa de juro é de 5%.
Foco em sustentabilidade
Reforçando o foco na questão climática, foram criadas duas novas linhas de crédito: o Pronaf B Agroecologia, para famílias com renda anual de até R$ 50 mil, e o Pronaf B Quintais Produtivos, um financiamento específico para mulheres com a mesma faixa de renda. “A novidade busca incentivar a transição de uma agricultura química para uma agricultura de base ecológica”, disse o ministro Teixeira.
Juro alto e endividamento são entraves
Apesar dos pontos positivos, lideranças gaúchas ponderam que o cenário macroeconômico e dívidas passadas são obstáculos. O coordenador geral da Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf-RS), Douglas Cenci, destacou que o plano mantém o incentivo à produção de alimentos, mas o juro básico elevado segue sendo um problema.
“Ao mesmo tempo em que mantém uma taxa de juros muito importante, o Plano Safra acompanha a Selic, e aí temos um problema, uma taxa muito alta. Tínhamos a perspectiva de que se pudesse reduzir na taxa de juros, mas à medida em que a Selic amplia, temos dificuldade de fazer esse exercício”, afirmou Cenci, apontando que em algumas regiões o juro somado à alíquota do Proagro (seguro rural) pode chegar a 20%.
Carlos Joel da Silva, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag-RS), demonstrou preocupação com a real disponibilidade dos recursos. “Vamos ver se vai ter recurso para equalizar, e aí tudo depende do que vier na portaria. Sem isto, o recurso não está disponível para os bancos”, alertou.
A principal preocupação, no entanto, é o endividamento dos agricultores gaúchos, que somam R$ 72 bilhões em dívidas, segundo a Federação da Agricultura do RS (Farsul). “Para muitos agricultores, se não vier uma medida de alongamento das dívidas, o Plano Safra não existe. Ou seja, segue a demanda para uma solução do endividamento rural”, declarou o presidente da Fetag-RS.
Acesso ao crédito e enquadramento
A Fetag-RS também voltou a cobrar a ampliação do limite de enquadramento para acesso ao Pronaf, atualmente em R$ 514 mil, que a entidade considera restritivo. Em seu discurso, o presidente Lula comentou o cenário de juros. “Eu gostaria que todo juro fosse zero, mas ainda não depende da nossa política econômica. O Banco Central é independente, o (Gabriel) Galípolo é um presidente muito sério, e eu tenho certeza que as coisas vão ser corrigidas com o passar do tempo”, disse.
Distribuição dos recursos
Pronaf: R$ 78,2 bilhões
Proagro Mais: R$ 5,7 bilhões
Compras públicas: R$ 3,7 bilhões
Garantia-safra: R$ 1,1 bilhão
Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater): R$ 240 milhões
PGPM-BIO: R$ 42,2 milhões
Total: R$ 89 bilhões

Foto: Divulgação / Pedro Ladeira / Folapress









