El Niño pode reduzir safra brasileira de soja em quase 10% e colocar R$ 33 bilhões em risco
Estudo da Serasa Experian aponta possível redução de 17,6 milhões de toneladas na produção nacional, enquanto o Rio Grande do Sul pode registrar aumento de 5,5 milhões de toneladas
A produção brasileira de soja pode cair 9,7% na safra 2026/2027 caso o país enfrente um El Niño de forte intensidade. Um estudo divulgado nesta terça-feira (27) pela Serasa Experian estima que a colheita nacional poderia ficar 17,6 milhões de toneladas abaixo do volume esperado em condições climáticas neutras, o equivalente a aproximadamente R$ 33 bilhões em valor bruto da produção. O Rio Grande do Sul, porém, apresenta uma perspectiva diferente, com possibilidade de aumento na produtividade devido à maior disponibilidade de chuvas.
Na simulação realizada pela Serasa Experian, o Brasil colheria 181,2 milhões de toneladas de soja em condições climáticas neutras. Com um El Niño forte, a produção cairia para 163,6 milhões de toneladas. A diferença corresponde a aproximadamente 293 milhões de sacas de 60 quilos.
O levantamento considera uma área cultivada de 49,9 milhões de hectares, crescimento de 1,8% em relação à temporada anterior. Mesmo com a ampliação das lavouras, a produtividade média nacional poderia diminuir de 3.622 para 3.282 quilos por hectare, uma redução de aproximadamente cinco sacas por hectare.
Para calcular os possíveis impactos, a empresa utilizou dados de produtividade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), informações climáticas e mapeamentos agrícolas por satélite. A comparação considera os resultados da safra 2023/2024, marcada por um El Niño forte, e da temporada 2024/2025, utilizada como referência de neutralidade climática.
O estudo não representa uma previsão definitiva de quebra de safra. Os números mostram o que poderia acontecer caso as condições climáticas observadas anteriormente se repetissem durante o atual ciclo agrícola. Os resultados dependerão da intensidade do fenômeno, da distribuição das chuvas e das condições das lavouras nos próximos meses.
Rio Grande do Sul pode produzir 5,5 milhões de toneladas a mais
Enquanto o Centro-Oeste concentra os maiores riscos de perdas, o Rio Grande do Sul pode ser beneficiado pelo aumento das chuvas. A produção gaúcha poderia passar de aproximadamente 16,7 milhões de toneladas, em um cenário climático neutro, para 22,3 milhões de toneladas sob influência de um El Niño forte, um ganho potencial de cerca de 5,5 milhões de toneladas.
A diferença está relacionada ao comportamento do fenômeno nas regiões brasileiras. O El Niño costuma provocar maior irregularidade das chuvas em partes do Centro-Oeste e do Norte, enquanto no Sul favorece o aumento das precipitações. Para as lavouras gaúchas, que enfrentaram estiagens em safras anteriores, a maior disponibilidade de água pode contribuir para o desenvolvimento das plantas, especialmente durante o florescimento e o enchimento dos grãos.
O benefício, entretanto, não é automático. Chuvas excessivas ou mal distribuídas também podem causar prejuízos, dificultando o plantio e a colheita, provocando encharcamento do solo e favorecendo doenças nas lavouras. No Rio Grande do Sul, o excesso de umidade já vinha dificultando o avanço da semeadura em algumas áreas.
Para os produtores do Alto Uruguai, o comportamento das chuvas ao longo do ciclo será decisivo. A projeção estadual não significa que todas as regiões terão aumento de produtividade, já que os resultados variam conforme as condições locais, o manejo e o desenvolvimento das lavouras.
Mato Grosso e Goiás concentram os maiores riscos de perdas
Os efeitos mais negativos do El Niño sobre a soja podem ocorrer em Mato Grosso e Goiás. Juntos, os dois estados concentram quase 80% da redução potencial identificada na análise.
Em Mato Grosso, maior produtor brasileiro de soja, a colheita poderia cair de 51,2 milhões para 41,5 milhões de toneladas, uma diferença de 9,7 milhões de toneladas. Em Goiás, o impacto estimado chega a 4 milhões de toneladas.
A principal preocupação nessas regiões está relacionada à irregularidade das chuvas e à ocorrência de períodos prolongados de calor e estiagem. A falta de água durante o estabelecimento das plantas, o florescimento e a formação dos grãos pode comprometer a produtividade, mesmo quando a área cultivada aumenta.
O cenário mais adverso analisado pela Serasa Experian indica possibilidade de redução da produtividade em 13 estados brasileiros, enquanto quatro unidades da Federação poderiam registrar ganhos.
Impacto econômico de R$ 33 bilhões não representa prejuízo confirmado
A estimativa de R$ 33 bilhões corresponde ao valor bruto da produção associado às 17,6 milhões de toneladas que deixariam de ser colhidas no cenário de El Niño forte, em comparação com as condições neutras.
Para chegar ao resultado, a Serasa Experian utilizou como referência o valor bruto da produção de soja calculado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em agosto, de R$ 340,6 bilhões. Com base nesse montante, foi considerado um valor médio aproximado de R$ 1,88 mil por tonelada.
O cálculo não significa que os produtores perderão efetivamente R$ 33 bilhões. Uma eventual redução da oferta pode alterar os preços da soja, enquanto fatores como contratos de comercialização, custos de produção e seguros rurais também influenciam os resultados financeiros.
O risco é especialmente relevante para produtores que já enfrentam dificuldades financeiras ou possuem elevado endividamento, pois uma quebra de produtividade pode comprometer a capacidade de pagamento de financiamentos, fornecedores e arrendamentos.
A evolução das lavouras nos próximos meses permitirá avaliar com maior precisão os impactos do clima sobre a safra. Os dados de produtividade previstos nos levantamentos da Conab a partir de dezembro serão importantes para verificar se os riscos identificados na simulação estão se concretizando.






