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Com tinta de urucum na fachada da Funai, caingangues cobram resposta do Estado por mortes na reserva indígena de Ventarra, em Erebango

  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Cerca de 30 manifestantes foram a Passo Fundo na terça-feira (10) exigir posição da Funai e do MP; conflito na Terra Indígena Ventarra, em Erebango, soma três mortos em seis meses, dezenas de feridos e casas incendiadas

O prazo de 90 dias da Força Nacional de Segurança na Terra Indígena Ventarra venceu na segunda-feira (9). No dia seguinte, cerca de 30 indígenas da etnia caingangue estavam na calçada da sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em Passo Fundo com cartazes pedindo justiça e tinta vermelha à base de urucum para pintar a fachada do prédio (em referência, segundo os manifestantes, ao sangue derramado na reserva nos últimos seis meses).

"Viemos pedir justiça. São seis meses de conflito, mataram o nosso cacique e uma mulher com criança no colo. Inclusive, mataram também um pai de família, que deixou uma mulher gestante. Até agora, nada está sendo resolvido. A gente quer uma posição da Funai e do Ministério Público", afirmou Daniele Souza Carvalho, participante do ato, à reportagem de GZH.

Três mortos, uma reserva em disputa

A Terra Indígena Ventarra, localizada em Erebango tem 772 hectares e é habitada majoritariamente por indígenas da etnia Kaingang. Desde setembro de 2025, tornou-se cenário de confrontos armados entre dois grupos que disputam o controle do cacicado (cargo de liderança política e administrativa da comunidade).

A terceira morte ocorreu na madrugada de sábado (7). Sidnei da Silva, líder do grupo que contestava a atual cacica da reserva, Toguila Braga, foi atingido por sete disparos de arma de fogo (três no braço e quatro no tórax) dentro da própria área indígena. Socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado ao Hospital São Roque, em Getúlio Vargas, ele não resistiu aos ferimentos. Outro indígena foi baleado na coxa esquerda e também levado ao mesmo hospital. Durante o confronto, pelo menos três residências foram incendiadas.

No momento do ataque, havia sete agentes da Força Nacional no território. A corporação atua na área desde dezembro de 2025, quando o Ministério da Justiça autorizou seu deslocamento para apoiar a Polícia Federal na preservação da ordem pública (autorização com prazo de 90 dias, vencido em 9 de março, um dia antes do protesto em Passo Fundo). Após o confronto de sábado, equipes da Brigada Militar, do 3º Batalhão de Choque (BPChoque), da Polícia Federal, do Samu, do Corpo de Bombeiros Militar e da Prefeitura de Erebango foram mobilizadas para o local.

Histórico de violência

A primeira morte registrada ocorreu em 15 de setembro de 2025. Após o confronto, a Polícia Federal realizou operação na reserva e apreendeu seis armas de fogo e dezenas de munições (entre elas duas espingardas calibre 12, uma espingarda calibre 20, um pistolão calibre 12, duas carabinas calibre 22, cerca de 200 cartuchos calibre 12 e 40 cartuchos calibre 22). Agentes flagraram um grupo de homens armados escondidos atrás de uma residência dentro da área.

Em outubro de 2025, dois indígenas foram presos em flagrante por envolvimento em conflito armado na reserva. No mesmo período, uma mulher foi baleada e morreu. A morte de Sidnei da Silva, em março de 2026, elevou para três o total de vítimas fatais diretamente ligadas à disputa interna recente.

Arrendamentos e interferência externa

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) — entidade vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que atua na defesa dos direitos indígenas —, o conflito tem como eixo central o controle do uso da terra e, especialmente, o arrendamento de áreas da reserva para agricultores não indígenas, prática proibida pela Constituição Federal.

O Cimi afirma que lideranças indígenas denunciaram interferência de agentes externos que estariam estimulando o conflito e fornecendo armas aos grupos rivais. A entidade também divulgou que, nos últimos dez anos, mais de 20 pessoas foram assassinadas na Terra Indígena Ventarra em decorrência de disputas relacionadas a arrendamentos.

Em nota divulgada após a morte de sábado, o Cimi Regional Sul declarou que vinha alertando autoridades sobre o agravamento da situação desde novembro de 2025, sem que medidas efetivas fossem adotadas. A organização também manifestou preocupação com a possibilidade de conflitos semelhantes se espalharem para outras terras indígenas gaúchas — Nonoai, Ligeiro e Cacique Doble — onde existem disputas relacionadas a arrendamentos para não indígenas.

O Estatuto do Índio (Lei nº 6.001/1973) e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com força jurídica no Brasil, asseguram aos povos indígenas o usufruto exclusivo de seus territórios.

O que os manifestantes pedem

No protesto desta terça-feira (10), em Passo Fundo, os manifestantes cobraram posição tanto da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas, órgão federal responsável pela proteção dos direitos indígenas) quanto do Ministério Público.

Foto: Mateus Pirolli / Rádio Uirapuru
Foto: Mateus Pirolli / Rádio Uirapuru

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