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[ÁUDIO] Escuta Aqui | 15/06/2026 - O relógio invisível da mente: por que sentimos o tempo voar e como a tecnologia sabota o presente

  • 16 de jun.
  • 5 min de leitura

Em entrevista à Rádio Sideral, a psicóloga Jordana Calcing adverte que a perda do ócio e o excesso de telas aceleram a percepção temporal

Em entrevista ao programa Escuta Aqui, da Rádio Sideral, realizada na última segunda-feira (15), a psicóloga Jordana Calcing afirmou que a forma como percebemos a passagem das horas é profundamente ditada pelas nossas emoções e pelo estilo de vida acelerado. Ao debater o impacto psicológico de estarmos no meio do ano, a especialista alertou para o fato de que a sociedade contemporânea está perdendo a capacidade de vivenciar o presente, o que gera uma sensação constante de tempo perdido e cansaço mental crônico.

A grande questão é que as 24 horas marcadas pelo relógio são imutáveis, mas o cérebro humano não possui receptores sensoriais diretos para o tempo físico. O que nós experimentamos é a chamada protensão (a duração temporal da qual se tem consciência subjetiva), um fenômeno que se altera conforme nossos níveis de atenção e carga afetiva.

O ócio em extinção: a ditadura da produtividade

Um dos principais diagnósticos apresentados por Jordana Calcing é a incapacidade das novas gerações de conviver com a ausência de tarefas. Para a psicóloga, a cultura de que é preciso estar produzindo a cada minuto transformou o repouso em fonte de culpa.

"Nós desaprendemos a viver no ócio. Hoje, quando nos vemos sem fazer nada, nós nos angustiamos. Isso interfere muito na nossa mente, porque quanto mais coisas fazemos, mais rápido o tempo parece passar e menos condições temos de realmente perceber o tempo fluir", explicou Calcing.

Essa aceleração é explicada pela fenomenologia do tempo. Em estudos publicados sobre a psicologia da percepção, como a obra do filósofo André Barata (2009), demonstra-se que a nossa mente funciona por meio de "ciclos de atualização". Quando nossa atenção está intensamente dividida ou focada em um fluxo mecânico de tarefas, o tempo de processamento intercíclico diminui. O filósofo, resgatando as premissas de John Locke, aponta que a percepção de duração do tempo provém do ritmo de novas ideias que surgem em nossa consciência.

Quando somos submetidos ao uso desenfreado de smartphones e redes sociais, essa fragmentação atinge o extremo. Jordana destaca que a tecnologia atua como uma barreira anestésica para a espera:

"Hoje em dia, esperar em um consultório médico sem o celular é quase intolerável para a maioria. O aparelho nos distrai, nos faz perder a noção das horas e, no final do dia, temos a sensação de que não fizemos nada e de que faltou tempo. Se tirássemos as telas ao nosso redor, veríamos que sobraria tempo para tudo o que realmente importa."

Ansiedade, depressão e o tempo que se arrasta

Se por um lado a rotina produtiva faz o ano passar "voando", a instabilidade emocional distorce o relógio em outra direção. De acordo com a psicóloga, quadros depressivos e de ansiedade causam uma dissociação temporal profunda. No consultório, pacientes diagnosticados com depressão costumam relatar que o presente é extremamente longo, arrastado e doloroso, embora, retrospectivamente, sintam que a vida passou rápido demais por não terem construído memórias ativas.

A ciência valida esse sofrimento na prática clínica. Pesquisas empíricas sobre a percepção ontológica do tempo (como o estudo liderado pelo Dr. Thiago Aquino, 2016) comprovam que a depressão está diretamente correlacionada com uma percepção negativa do passado e com a desesperança em relação ao futuro. O estudo de Aquino demonstra que a presença de um "sentido de vida" e uma perspectiva positiva sobre o amanhã agem como os maiores fatores protetores contra os transtornos de humor.

Quando há ausência de metas significativas, o indivíduo cai no chamado "vazio existencial", descrito por Viktor Frankl, em que a tensão saudável entre o "ser" (o presente) e o "dever ser" (as possibilidades do futuro) se rompe. Sem essa âncora existencial, a percepção do tempo adoece.

Por que o tempo acelera com a idade?

Outra queixa comum é o fato de que os anos parecem passar muito mais devagar para as crianças do que para os adultos e idosos.

"Para uma criança, a chegada de um aniversário parece demorar cinco anos, pois ela conta cada dia. Para o idoso, pela quantidade de experiências acumuladas e pela perspectiva do tempo que ainda tem pela frente, a sensação de velocidade é infinitamente maior", apontou Jordana Calcing.

Na gerontologia, essa mudança é amplamente estudada sob a ótica biológica e cognitiva. À medida que o metabolismo desacelera e o relógio biológico endógeno (vinculado aos ritmos circadianos de melatonina e temperatura corporal) sofre alterações, a percepção temporal externa parece acelerar.

No entanto, intervenções ativas mostram-se capazes de mitigar esse declínio. Estudos de reabilitação cognitiva realizados com idosos na Universidade Católica de Brasília (UCB) revelaram que a prática constante de exercícios físicos e cognitivos transforma a forma como eles percebem o tempo. Ao reinseri-los em contextos de aprendizagem e socialização, a autopercepção do tempo deixa de estar associada a perdas físicas e dores ("não consigo", "não sei") e passa a ser vinculada a termos como "aprender", "viver" e "experiência".

Na prática, ao preencher a mente com novas memórias ricas e contextualizadas, a estimativa do tempo vivido ganha densidade e qualidade, freando a sensação incômoda de que a vida está escorrendo pelas mãos.

Como desacelerar o "relógio mental": dicas práticas

Retomar as rédeas do próprio tempo não significa trabalhar menos ou abandonar as obrigações familiares, mas sim reestruturar a qualidade de nossa presença nas ações diárias. No encerramento de sua participação, a psicóloga Jordana Calcing apontou quatro estratégias fundamentais:

  1. Eleger prioridades reais: definir claramente o que é fundamental para a sua semana ou para o seu ano (como realizar uma cirurgia pendente, investir na saúde ou no lazer) evita o acúmulo de responsabilidades desnecessárias.

  2. Reduzir as distrações excessivas: estabelecer períodos de detox digital. Se o uso do celular for intencional (para pesquisa ou lazer), ele é saudável; se for automático para preencher momentos vazios, ele rouba sua presença do mundo real.

  3. Criar novas experiências: fazer sempre a mesma rotina faz com que a memória registre os dias como um único bloco homogêneo, acelerando a percepção de tempo passado. Criar pequenos marcos diferentes na semana (uma viagem curta, uma atividade nova) expande nossa sensação de vida vivida.

  4. Valorizar os pequenos rituais do cotidiano: Jordana destacou a cultura gaúcha como uma aliada nesse processo:

    "Valorizar o momento de sentar e tomar um chimarrão com a família, conversar olhando nos olhos das pessoas que gostamos, de forma disponível e sem pressa, muda completamente a nossa percepção e nos traz de volta para o presente."

Viver o presente, portanto, exige que a mente esteja no mesmo lugar que o corpo. A sensação de que "não temos tempo" é, na verdade, um alerta de que não estamos sabendo habitá-lo.


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